Logo ao nascer a criança é tomada por algo muito impreciso, que tenta se organizar através de sensações estranhas e angustiantes, mas tende a se abrandar, ao menos por algumas horas, em face de um primeiro laço afetivo que se vincula a sensação de fome. Sua mãe! Eis a explicação mais plausível para um sofrimento psíquico e fisiológico tão intenso, presumirá esse ser humano tão recém chegado ao mundo, pois faltava-lhe apenas aquele contato e ele estaria completo. Diria Freud que aquela sensação de prazer ao degustar o leite tão esperado ao sabor do afeto materno, produziria em seu rudimentar psiquismo, um traço mnêmico de satisfação, ou seja, lhe marcaria para sempre de modo que sua pulsão ( impulso que visa o prazer e a autoconservação), tenderia a uma constante repetição e busca de sua primeira sensação de prazer. Esse bebê estará chorando logo mais, em busca de novo leite, afeto e satisfação.Essa primeira falta não cessará ao longo da vida,embora possamos colecionar conquistas materiais e simbólicas, pois ela nos move em direção ao inatingível, ou como diria a psicanalise, ao objeto perdido, uma vez que o objeto do desejo se desloca a medida que se alcança qualquer objeto esperado. Mas o que desejamos mesmo afinal? dinheiro, reconhecimento, vida longa,realização profissional? Qualquer resposta parece refutável, posto o fato de que estamos no seculo mais rico e produtivo da historia humana, além de ser o que mais gerou conquistas sociais avidamente aguardadas, entretanto, é o período onde se verifica o maior consumo de ansiolíticos e antidepressivos. Os transtornos de ansiedade se multiplicam a passos largos e as síndromes depressivas, quando não são tão evidentes para o sujeito que sofre, são encobertas por hábitos ou vícios que sustentam a angustia não nomeada por ele. É o momento que o desamparo existencial produz sintomas psíquicos e somáticos. "Só mais um copinho", dirá o abusador de álcool, sabendo inconscientemente que não parará tão cedo, assim como o tabagista não se confessa viciado, mesmo fumando dois maços de cigarro ao dia. Alguns prometem , em vão, parar na semana que vem.
Os Johnnie Walkers, cassinos , cigarros ou promiscuidades sexuais regem a vida psíquica dos adictos, como intitula a nova psiquiatria, sendo a retirada desse elemento primordial (a compulsão), a derrocada desse sujeito que não aprendeu a lidar com a falta. a diversidade gastronômica é, também, um apelo irresistível aos olhos ansiosos, que tetam preencher com a comida, aquilo que carece do simbólico, embora o excessivo culto ao corpo obrigue os magros a se angustiar pelo excesso de dietas desestruturantes. Não de se estranhar que o bulímico vomite o que não lhe preenche de significado e a anorexa, que se excede patologicamente ao se abster de comida, ignorem a falta que se faz presente em ambos os casos. um dos grandes maestros desse desarranjo é a atual cultura ocidental de felicidade, ao projetar
no mundo a formula da completude, em detrimento do sujeito, desde muito cedo estruturado pela falta. Esse desamparo merece uma atenção individual!
Por: Leonardo Queiroz Gomes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário