Ainda hoje guardo muitas
lembranças materiais dos meus pais. Algumas coisas até desnecessárias, porém
tenho uma dificuldade tão grande de mexer nas coisas deles por apenas um
motivo: ainda me causa muita dor, uma dor que faz com que eu prefira deixar
essas coisas guardadas até essa ferida cicatrizar de verdade. Uma coisa que
tenho certeza nisso tudo é que ao perder meus pais minha depressão se
intensificou, junto com problemas familiares os quais me desestabilizaram
muito, passando como um rolo compressor por cima de mim sem se importarem que
eu estava de luto, que também estava sentindo essa dor, essa falta. Afinal
depois da morte de minha mãe, que foi mais inesperada que a do meu pai pois, de
certa forma, a dele já era de se esperar devido à gravidade da doença que ele
sofria. Quando minha mãe se foi cinco meses após o meu pai, meu mundo caiu. Meu
porto seguro tinha me deixado, ainda tinha tanto a aprender, a trocar, é como
se um ciclo tivesse sido interrompido sem ser concluído e isso dói demais. De
tantos planos inacabados, tantos lugares para ir, tantas conversas inacabadas.
Além da perda em si fica essa inconformidade de não ter conseguido terminar
nossas coisas. A gente pode ter a idade que for mais um colo de mãe não tem
igual e sempre terminamos sentindo falta. E o resumo disso é dor, muita dor.
Essa ausência se torna
ainda mais nítida quando as vezes olhamos para os lados e vemos alguém, mas
mesmo assim nos sentimos sós. Não que as pessoas não estejam fazendo nada, mas
parece que essa dor é tão dilacerante que nada é suficiente para sanar. Não é
questão de ser mal-agradecida, é que só nós que sentimos sabemos a intensidade
e quão profunda é essa dor. Então trata-se de se vitimizar? Também não, pois as
dores são diferentes em cada indivíduo. De repente outra pessoa talvez nem se
lembrasse mais com tanta dor de certa situação, mas é isso. Somos indivíduos
únicos e sentimos diferentes e a minha dor não é de carregar e arrastar
correntes, tenho isso muito claro na minha cabeça. A minha dor é de saudade
infinita, não aceitação por vários motivos, e isso é o que mais dói, corroí a
alma. Eu sinceramente peço que Deus que aquiete meu coração, para que eu possa
aceitar o que não posso mudar. A sensação de abandono também é muito difícil
pelo fato de você ter durante toda sua vida seus pais ao seu lado, e sendo
filha caçula fica aquela coisa de poder sempre contar com eles. Então você
perde o chão quando se vê na realidade sozinho e os demais membros da família
estão cada um cuidando da sua dor e não tem mais colo, mais diálogo. Você dá
com a cara no chão e dói muito mais. Não deveria ser permitido que morressem
pai e mãe quase juntos. Para que tivéssemos alguém para poder ter perto, amenizar
essa dor brusca da perda. Nesse caso, ainda ficaria outra questão sobre como
fazer para que aquele que ficou não se sinta só, depois de uma vida inteira
juntos. No fim, quem pode evitar quando está para acontecer? Ninguém! Toco muito
nesses assuntos sobre o falecimento dos meus pais, pois é um assunto que mexe
muito comigo e ainda me dói muito.
Por: Nina
Por: Nina

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