Acho que tudo na
vida tem seu lado positivo e essa pandemia tem o de nos dar a chance de
praticarmos mais o autoconhecimento, e não, isso não é estar romantizando a
situação que, por sinal, é gravíssima e muito preocupante. Em anos de terapia
descobri que o autoconhecimento é um aliado poderoso na busca da nossa melhor
qualidade de vida como uma pessoa que sofre de depressão. No entanto, como também
já citei, a pandemia escancarou relações mascaradas por um cotidiano de
correria, de muitos afazeres, uma vida para alguns no automático.
Eu quero falar
um pouco sobre o preconceito e a falta de traquejo que as famílias têm com as
pessoas que sofrem de ansiedade e depressão e pode apostar que essas atitudes, além
de serem gatilhos, às vezes doem mais do que a depressão.
O preconceito
na minha família existe desde antes mesmo eu descobrir que tinha esse problema.
Quando tinha apenas 15 anos arrumei um namoradinho e minha mãe não gostava
dele, fez de tudo para acabar com meu relacionamento juntamente com um dos meus
irmãos. Ela achava que eu não estava bem e eu mesma fui atrás de um psicólogo, porque
até ficava me questionando sobre isso. Fui buscar uma psicóloga até um dia ela
chamou minha mãe para conversar e ela foi. Fiquei do lado de fora esperando e
só lembro da minha mãe saindo de lá bufando de raiva e até hoje me lembro das
palavras dela... “que a psicóloga era
mais doida do que eu”....kkkkkkk. Hoje acho até graça, mas sei o que esses
comentários, esses rótulos significaram na minha vida para o desenrolar do meu
problema psicológico. Eu, de fato, não sei dizer se a minha depressão se
instalou na infância ou se por problema na genética (em minha família existem vários casos de pessoas com
depressão), já nasci assim. Só sei que foram anos de terapia até entender que
alguns sentimentos da infância, alguns comportamentos, angústias e tristezas já
eram sintomas de depressão e minha família nunca identificou isso. Sei que há
alguns anos não era um problema muito falado, até mesmo estudado, lembro dos
adjetivos que vinham juntos com as atitudes, que hoje sei, se apresentavam pela
depressão, mas que tinham várias outras formas de falar: “Tu és muito besta!”, “tu és medrosa!”, “parece que tem medo de falar!”.
Meus pais foram pessoas simples, de pouco estudo e não tinham também esclarecimentos
para certos assuntos. Hoje sei que o que eles me deram em forma de educação e
apoio para aquela época era o que estava ao alcance deles (não estou falando
financeiramente), estou falando da vida difícil sofrida que eles tiveram e
fizeram o melhor diante das circunstâncias.
Voltando a história
do namorado, parei a terapia e depois de conversar com meu irmão mais velho, o
qual minha mãe ouvia muito, ela liberou o namoro. No entanto, pouco tempo depois
mudamos de cidade e como era menor de idade tive que acompanhar meus pais e
assim me separaram do meu primeiro amor. Foi minha segunda grande perda, pois uma adolescente,
apaixonadíssima e que estava sendo obrigada pelas circunstâncias a deixar seu
grande amor para trás. Nossa! Lembro como se fosse hoje. Como essa dor me dilacerava
e vim praticamente toda viagem chorando, 36 horas de viajem de João Pessoa de
volta à Belém. A minha primeira
grande perda foi quando fomos embora de Belém pra João Pessoa era uma criança
com muitas amizades e bem relacionada no meio dos amigos, apesar de já sentir
algumas sensações estranhas, principalmente quando estava sozinha, mas enfim,
amava meus amigos, nossa turminha, brincadeiras, conversas e sem praticamente
entender o porquê fui arrancada do meu mundo, do mundo que me fazia sentir
feliz. Eu não queria ir e não achava nenhuma justificativa que minha família me
dava aceitável para perder esse meu mundo, escola, amigos da escola. Eu era
muito criança, mas sei como isso me foi dolorido. Depois de um tempo já um
pouco mais velha, descobri que precisávamos ir embora, pois meu irmão estava se
envolvendo com coisas erradas e sem muito refletir, até porque nem a idade
permitia, só consegui sentir muita raiva dele. Imediatamente associei que a
perda dos meus amigos e desse mundinho feliz foi por culpa dele e por muito
tempo responsabilizei meus pais por isso.
Não gostava de
João Pessoa, não tinha amizades perdi um ano de estudo, pois minha mãe não conseguiu
vaga. Isso foi um prejuízo muito grande para mim e vocês não imaginam o que é
perder um ano sem estudar para alguém que nunca tinha repetido de ano,
dificilmente tirava notas baixas. Desde essa época foi o primeiro impacto
negativo na minha tão jovem vida, perder o estimulo pelos estudos. Foi muito
difícil recuperar depois e nossa vida em João Pessoa foi muito difícil, minha
mãe não se conformava em ter vendido todas as coisas dela para aventurar uma
vida em outro estado e que querendo ou não meu pai tinha um negócio estável em Belém
e em João Pessoa tiveram que começar do zero e não eram mais tão jovens. E o
pior de tudo foi ver meu irmão chegar lá e se envolver com quase as mesmas
coisas novamente. Foi triste ver minha mãe chorando todos os dias por ter
largado tudo dela, deixado um filho com apenas 18 anos morando sozinho em Belém
para salvar outro e não ter adiantado nada e, ainda disso ver este irmão
chegando em casa bêbado, causando pânico em todos, inclusive em mim que fui seu
saco de pancadas, deboches e ironias a vida toda. Morávamos num inferno de
brigas, mentiras, ignorâncias, falta de carinho e que era piorado com a
ausência do meu outro irmão mais velho e a falta de conforto que não tínhamos
como em Belém tínhamos.
Eu só sei que
tudo isso, essas perdas de amigos, de meu lugar no mundo em uma fase de
mudanças que a adolescência traz, a falta de apoio e a toxidade da família
foram sem dúvida as principais atribuições que desencadearam minha depressão. E
neste relato não está nem a metade, pois algumas coisas não julgo apropriadas citar
aqui. E nesse meio tempo vivi alguns traumas com perdas de pessoas próximas, entes
queridos e a mais trágica de todas, a perda dos meus pais de forma dolorosa e
triste. Alguns desses fatos já relatei em outros textos.
A única coisa que continua da mesma
forma apesar de anos de tratamento e muitas vezes falado no assunto por muito
tempo, é de ter outras pessoas na família com depressão e ansiedade. Continuo sofrendo com preconceitos, seja em uma brincadeira
de mal gosto, seja a falta de atenção e cuidado em disparar gatilhos. Ao meu
ver se você já convive a anos com pessoas com algum problema de saúde, saberia que
alguns cuidados devem ser tomados, por exemplo, se eu sei que um familiar é
hipertenso, vou preparar uma comida sem ou com pouco sal, se for um diabético
não vou oferecer doces. Mas, a depressão, por ser um problema que muitos dizem
que não veem, as faltas de cuidados seguem. Agora, quando você vê alguém sem se
alimentar corretamente, isso não ser visível? Se você vê uma pessoa a quase
dois anos sem reagir, isso não é visível? Não sei o que possa ser possível ser
feito para que a pessoa com depressão não sofra preconceito e sejam mais
respeitadas, pois tudo isso dói muito. A empatia deve ser uma palavra
acrescentada ao vocabulário de qualquer ser humano, mas para pessoas próximas
de quem sofre com depressão deveria ser lei.
O que concluo
nesse texto como por experiência própria é que tenham muito cuidado como agem
com seus filhos, sejam crianças, adolescentes. Em segundo lugar pessoas com problemas
psicológicos no geral sempre são mais sensíveis. Você isolaria uma pessoa que esteja sofrendo
com câncer? A depressão é o câncer da alma...sim essa frase é um clichê, mas
nenhuma cabe melhor do que essa. Porque dói, corrói, faz chorar, faz sofrer,
causa mudança de humor, causa irritabilidade, se alguém fala com um tom
diferente você sente vontade de chorar e não é mimo, não é manha, é uma sensação
que você não sabe de onde vem ou porque vem, mas ela está ali e as pessoas não compreendem
e te isolam por não entenderem que todos esses são motivos da doença e o mais
chato é você ter que estar desenhando isso a todo instante. Ainda passamos por vitimista
e o orgulho, egocentrismo das pessoas não deixam elas perceberem que a
dificuldade não está em quem sofre de depressão e sim, na ignorância que
acompanham essas pessoas.
Por: Nina

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