sábado, 23 de maio de 2020

PRECONCEITO NA FAMILIA


Acho que tudo na vida tem seu lado positivo e essa pandemia tem o de nos dar a chance de praticarmos mais o autoconhecimento, e não, isso não é estar romantizando a situação que, por sinal, é gravíssima e muito preocupante. Em anos de terapia descobri que o autoconhecimento é um aliado poderoso na busca da nossa melhor qualidade de vida como uma pessoa que sofre de depressão. No entanto, como também já citei, a pandemia escancarou relações mascaradas por um cotidiano de correria, de muitos afazeres, uma vida para alguns no automático.
Eu quero falar um pouco sobre o preconceito e a falta de traquejo que as famílias têm com as pessoas que sofrem de ansiedade e depressão e pode apostar que essas atitudes, além de serem gatilhos, às vezes doem mais do que a depressão.
O preconceito na minha família existe desde antes mesmo eu descobrir que tinha esse problema. Quando tinha apenas 15 anos arrumei um namoradinho e minha mãe não gostava dele, fez de tudo para acabar com meu relacionamento juntamente com um dos meus irmãos. Ela achava que eu não estava bem e eu mesma fui atrás de um psicólogo, porque até ficava me questionando sobre isso. Fui buscar uma psicóloga até um dia ela chamou minha mãe para conversar e ela foi. Fiquei do lado de fora esperando e só lembro da minha mãe saindo de lá bufando de raiva e até hoje me lembro das palavras dela... “que a psicóloga era mais doida do que eu”....kkkkkkk. Hoje acho até graça, mas sei o que esses comentários, esses rótulos significaram na minha vida para o desenrolar do meu problema psicológico. Eu, de fato, não sei dizer se a minha depressão se instalou na infância ou se por problema na genética (em minha família existem vários casos de pessoas com depressão), já nasci assim. Só sei que foram anos de terapia até entender que alguns sentimentos da infância, alguns comportamentos, angústias e tristezas já eram sintomas de depressão e minha família nunca identificou isso. Sei que há alguns anos não era um problema muito falado, até mesmo estudado, lembro dos adjetivos que vinham juntos com as atitudes, que hoje sei, se apresentavam pela depressão, mas que tinham várias outras formas de falar: “Tu és muito besta!”, “tu és medrosa!”, “parece que tem medo de falar!”. Meus pais foram pessoas simples, de pouco estudo e não tinham também esclarecimentos para certos assuntos. Hoje sei que o que eles me deram em forma de educação e apoio para aquela época era o que estava ao alcance deles (não estou falando financeiramente), estou falando da vida difícil sofrida que eles tiveram e fizeram o melhor diante das circunstâncias.  
Voltando a história do namorado, parei a terapia e depois de conversar com meu irmão mais velho, o qual minha mãe ouvia muito, ela liberou o namoro. No entanto, pouco tempo depois mudamos de cidade e como era menor de idade tive que acompanhar meus pais e assim me separaram do meu primeiro amor. Foi minha segunda grande perda, pois uma adolescente, apaixonadíssima e que estava sendo obrigada pelas circunstâncias a deixar seu grande amor para trás. Nossa! Lembro como se fosse hoje. Como essa dor me dilacerava e vim praticamente toda viagem chorando, 36 horas de viajem de João Pessoa de volta à Belém. A minha primeira grande perda foi quando fomos embora de Belém pra João Pessoa era uma criança com muitas amizades e bem relacionada no meio dos amigos, apesar de já sentir algumas sensações estranhas, principalmente quando estava sozinha, mas enfim, amava meus amigos, nossa turminha, brincadeiras, conversas e sem praticamente entender o porquê fui arrancada do meu mundo, do mundo que me fazia sentir feliz. Eu não queria ir e não achava nenhuma justificativa que minha família me dava aceitável para perder esse meu mundo, escola, amigos da escola. Eu era muito criança, mas sei como isso me foi dolorido. Depois de um tempo já um pouco mais velha, descobri que precisávamos ir embora, pois meu irmão estava se envolvendo com coisas erradas e sem muito refletir, até porque nem a idade permitia, só consegui sentir muita raiva dele. Imediatamente associei que a perda dos meus amigos e desse mundinho feliz foi por culpa dele e por muito tempo responsabilizei meus pais por isso.
Não gostava de João Pessoa, não tinha amizades perdi um ano de estudo, pois minha mãe não conseguiu vaga. Isso foi um prejuízo muito grande para mim e vocês não imaginam o que é perder um ano sem estudar para alguém que nunca tinha repetido de ano, dificilmente tirava notas baixas. Desde essa época foi o primeiro impacto negativo na minha tão jovem vida, perder o estimulo pelos estudos. Foi muito difícil recuperar depois e nossa vida em João Pessoa foi muito difícil, minha mãe não se conformava em ter vendido todas as coisas dela para aventurar uma vida em outro estado e que querendo ou não meu pai tinha um negócio estável em Belém e em João Pessoa tiveram que começar do zero e não eram mais tão jovens. E o pior de tudo foi ver meu irmão chegar lá e se envolver com quase as mesmas coisas novamente. Foi triste ver minha mãe chorando todos os dias por ter largado tudo dela, deixado um filho com apenas 18 anos morando sozinho em Belém para salvar outro e não ter adiantado nada e, ainda disso ver este irmão chegando em casa bêbado, causando pânico em todos, inclusive em mim que fui seu saco de pancadas, deboches e ironias a vida toda. Morávamos num inferno de brigas, mentiras, ignorâncias, falta de carinho e que era piorado com a ausência do meu outro irmão mais velho e a falta de conforto que não tínhamos como em Belém tínhamos.
Eu só sei que tudo isso, essas perdas de amigos, de meu lugar no mundo em uma fase de mudanças que a adolescência traz, a falta de apoio e a toxidade da família foram sem dúvida as principais atribuições que desencadearam minha depressão. E neste relato não está nem a metade, pois algumas coisas não julgo apropriadas citar aqui. E nesse meio tempo vivi alguns traumas com perdas de pessoas próximas, entes queridos e a mais trágica de todas, a perda dos meus pais de forma dolorosa e triste. Alguns desses fatos já relatei em outros textos.
A única coisa que continua da mesma forma apesar de anos de tratamento e muitas vezes falado no assunto por muito tempo, é de ter outras pessoas na família com depressão e ansiedade. Continuo sofrendo com preconceitos, seja em uma brincadeira de mal gosto, seja a falta de atenção e cuidado em disparar gatilhos. Ao meu ver se você já convive a anos com pessoas com algum problema de saúde, saberia que alguns cuidados devem ser tomados, por exemplo, se eu sei que um familiar é hipertenso, vou preparar uma comida sem ou com pouco sal, se for um diabético não vou oferecer doces. Mas, a depressão, por ser um problema que muitos dizem que não veem, as faltas de cuidados seguem. Agora, quando você vê alguém sem se alimentar corretamente, isso não ser visível? Se você vê uma pessoa a quase dois anos sem reagir, isso não é visível? Não sei o que possa ser possível ser feito para que a pessoa com depressão não sofra preconceito e sejam mais respeitadas, pois tudo isso dói muito. A empatia deve ser uma palavra acrescentada ao vocabulário de qualquer ser humano, mas para pessoas próximas de quem sofre com depressão deveria ser lei.
O que concluo nesse texto como por experiência própria é que tenham muito cuidado como agem com seus filhos, sejam crianças, adolescentes. Em segundo lugar pessoas com problemas psicológicos no geral sempre são mais sensíveis.  Você isolaria uma pessoa que esteja sofrendo com câncer? A depressão é o câncer da alma...sim essa frase é um clichê, mas nenhuma cabe melhor do que essa. Porque dói, corrói, faz chorar, faz sofrer, causa mudança de humor, causa irritabilidade, se alguém fala com um tom diferente você sente vontade de chorar e não é mimo, não é manha, é uma sensação que você não sabe de onde vem ou porque vem, mas ela está ali e as pessoas não compreendem e te isolam por não entenderem que todos esses são motivos da doença e o mais chato é você ter que estar desenhando isso a todo instante. Ainda passamos por vitimista e o orgulho, egocentrismo das pessoas não deixam elas perceberem que a dificuldade não está em quem sofre de depressão e sim, na ignorância que acompanham essas pessoas.



Por: Nina

Nenhum comentário:

Postar um comentário