Não queria me
sentir assim tão sensível, queria que os sentimentos passassem por mim de uma
forma menos devastadora. Sei que dor é dor em qualquer pessoa que não é algo
comparável e que toda dor deveria ser respeitada, mas não é nada disso que
acontece comigo. Ninguém respeita minhas dores, ninguém quer saber de onde elas
vêm.
Minha irmã que
é evangélica acha que minha dor só será curada por Deus, não que não acredite
em Deus, eu acredito sim, e muito. Entretanto, também acredito que devemos
investigar as origens dos nossos traumas e conflitos. Não consigo acreditar no
desdém que as pessoas ainda tratam quem sofre de depressão. Esses comentários
de “é preguiça”, “falta do que fazer”, “mente vazia é oficina do diabo”, “meu
psicólogo é Deus” são palavras tão fortes, tão insensíveis e sempre vêm de quem
mais amamos. Algumas pessoas têm o
mínimo de empatia enquanto outro nenhum pouco. As pessoas não entendem porque
os estudos mostram que o suicídio tem uma taxa altíssima no mundo, porque as ONGs
que lutam em favor da vida dão dicas de amor, acolhimento, empatia. Você pode
pegar uma pessoa que esteja com um emocional abaladíssimo e uma frase dessas,
ou de outras com ouço e já ouvi muito dos meus irmãos e pode simplesmente
desistir da própria vida. Ah, mas é só não ligar! Nós estamos falando das
pessoas mais próximas e das pessoas que você acredita que deveriam te amar.
As pessoas
pensam que responsabilidade afetiva só existe em caso de namoro. Já ouvi muito
essa frase: “Se as feridas do teu irmão não lhe causam dor, sua doença é pior
do que a dele” – acho que ela diz tanto sobre o modo de como algumas pessoas
são e, ao mesmo tempo, fala tanto da solidão que uma pessoa com depressão pode
estar passando, que as pessoas acham que ela estar chorando, com pensamentos
negativos, já é tão normal, que nem dão mais a devida atenção e que suas dores,
sofrimentos já são normais. Nenhuma dor é normal, nenhum sofrimento é normal a
gente precisa olhar as pessoas com olhar de empatia e carinho. Ninguém chora porque
acha legal chorar, muito menos sofre porque é legal sofrer. Sentimos tanto medo, tantas angústias, tantas
inseguranças. Ninguém queira passar por isso, porque não é nada bom. Não
menospreze a dor do outro. Se você não pode ajudar, não desdenhe, não faça com
ninguém o que você não gostaria que fosse feito com você. Se você não consegue
ter um olhar de carinho, pelo menos respeite. Mas se puder, ajude! Já vi duas
pessoas próximas cometerem suicídio, justamente por não serem compreendidas,
por não serem levadas a sério pela própria família. Nesse momento que passamos
por uma pandemia, onde o amor deveria estar sendo praticado mais ainda. Hoje em
dia não sabemos nada do amanhã e a pessoa que você mais menospreza pode ser
aquela que você possa não conseguir tocar mais. E nunca queira sentir-se
culpada por não dar importância em determinado momento, pois a culpa corrói a
alma e a dor dela é horrível.
Venho de uma
família onde sempre existiam culpados, nunca ninguém arcou com suas próprias
responsabilidades, sempre o outro era culpado. Sou a caçula de quatro filhos e,
até eu que ainda era uma criança e nem sabia o real significado da culpa,
muitas vezes me passaram ela como se uma criança tivesse as mesmas
responsabilidades de algumas situações como um adulto. Essas culpas nos acompanham
a vida toda e para descobrir depois é difícil, porque são anos de terapia para
se desatar o nó que fica na cabeça e temos a sensação de estar sendo expurgado
algo de nós, porque dói tanto, é uma confusão de sentimentos, parece que o nó que
vai sendo desfeito na cabeça, vem descendo para o peito e é essa sensação de
dor tão grande. Fico me perguntando quando esse emaranhado vai acabar para que
eu possa viver plenamente minha vida, pois desde os últimos gatilhos percebo
que essas crises depressivas demoram mais a passar, e isso, por si só, já traz
uma tristeza que não é boa, nem é saudável para ser humano nenhum.

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