terça-feira, 9 de junho de 2020

VÍTIMA DE MIM



Não queria me sentir assim tão sensível, queria que os sentimentos passassem por mim de uma forma menos devastadora. Sei que dor é dor em qualquer pessoa que não é algo comparável e que toda dor deveria ser respeitada, mas não é nada disso que acontece comigo. Ninguém respeita minhas dores, ninguém quer saber de onde elas vêm.
Minha irmã que é evangélica acha que minha dor só será curada por Deus, não que não acredite em Deus, eu acredito sim, e muito. Entretanto, também acredito que devemos investigar as origens dos nossos traumas e conflitos. Não consigo acreditar no desdém que as pessoas ainda tratam quem sofre de depressão. Esses comentários de “é preguiça”, “falta do que fazer”, “mente vazia é oficina do diabo”, “meu psicólogo é Deus” são palavras tão fortes, tão insensíveis e sempre vêm de quem mais amamos.  Algumas pessoas têm o mínimo de empatia enquanto outro nenhum pouco. As pessoas não entendem porque os estudos mostram que o suicídio tem uma taxa altíssima no mundo, porque as ONGs que lutam em favor da vida dão dicas de amor, acolhimento, empatia. Você pode pegar uma pessoa que esteja com um emocional abaladíssimo e uma frase dessas, ou de outras com ouço e já ouvi muito dos meus irmãos e pode simplesmente desistir da própria vida. Ah, mas é só não ligar! Nós estamos falando das pessoas mais próximas e das pessoas que você acredita que deveriam te amar.
As pessoas pensam que responsabilidade afetiva só existe em caso de namoro. Já ouvi muito essa frase: “Se as feridas do teu irmão não lhe causam dor, sua doença é pior do que a dele” – acho que ela diz tanto sobre o modo de como algumas pessoas são e, ao mesmo tempo, fala tanto da solidão que uma pessoa com depressão pode estar passando, que as pessoas acham que ela estar chorando, com pensamentos negativos, já é tão normal, que nem dão mais a devida atenção e que suas dores, sofrimentos já são normais. Nenhuma dor é normal, nenhum sofrimento é normal a gente precisa olhar as pessoas com olhar de empatia e carinho. Ninguém chora porque acha legal chorar, muito menos sofre porque é legal sofrer.  Sentimos tanto medo, tantas angústias, tantas inseguranças. Ninguém queira passar por isso, porque não é nada bom. Não menospreze a dor do outro. Se você não pode ajudar, não desdenhe, não faça com ninguém o que você não gostaria que fosse feito com você. Se você não consegue ter um olhar de carinho, pelo menos respeite. Mas se puder, ajude! Já vi duas pessoas próximas cometerem suicídio, justamente por não serem compreendidas, por não serem levadas a sério pela própria família. Nesse momento que passamos por uma pandemia, onde o amor deveria estar sendo praticado mais ainda. Hoje em dia não sabemos nada do amanhã e a pessoa que você mais menospreza pode ser aquela que você possa não conseguir tocar mais. E nunca queira sentir-se culpada por não dar importância em determinado momento, pois a culpa corrói a alma e a dor dela é horrível.
Venho de uma família onde sempre existiam culpados, nunca ninguém arcou com suas próprias responsabilidades, sempre o outro era culpado. Sou a caçula de quatro filhos e, até eu que ainda era uma criança e nem sabia o real significado da culpa, muitas vezes me passaram ela como se uma criança tivesse as mesmas responsabilidades de algumas situações como um adulto. Essas culpas nos acompanham a vida toda e para descobrir depois é difícil, porque são anos de terapia para se desatar o nó que fica na cabeça e temos a sensação de estar sendo expurgado algo de nós, porque dói tanto, é uma confusão de sentimentos, parece que o nó que vai sendo desfeito na cabeça, vem descendo para o peito e é essa sensação de dor tão grande. Fico me perguntando quando esse emaranhado vai acabar para que eu possa viver plenamente minha vida, pois desde os últimos gatilhos percebo que essas crises depressivas demoram mais a passar, e isso, por si só, já traz uma tristeza que não é boa, nem é saudável para ser humano nenhum.

Nenhum comentário:

Postar um comentário