Existem
pessoas que já nos fizeram tanto mal, psicologicamente falando, que elas ativam
mais gatilhos do que se você vivesse em um verdadeiro faroeste. Às vezes são
situações até bem simples, que em qualquer outra pessoa não surtiriam efeito
nenhum, mas o seu cérebro já associa essa pessoa aos traumas que ela te causou
e, aí já vêm os sintomas mais variados: ansiedade, nervosismo, vontade de
chorar, falta de ar, uma angústia inexplicável.
Eu,
infelizmente, sofri os maiores traumas de pessoas da família, de pessoas que
amava. Toda vez que me encontro em um processo de reconstrução da mulher feliz,
alegre que um dia fui, sempre vem algumas dessas pessoas me desmontar e volto a
ser os cacos no chão, tendo que iniciar novamente essa reconstrução sempre, e ela
se dá de forma lenta. Às vezes me pergunto se não terei mais direito a uma vida
plena, sem tantos gatilhos, se nunca vou ser imune ao mal que essas pessoas me
causam. Queria ter um tempo de paz, sem ter que viver na perspectiva de alguém vir
me derrubar de novo. Estou num processo tão bom de ter voltado a estudar, de
autoconhecimento, enfrentando meus fantasmas, e não queria que esse processo
acabasse por atitudes dos outros que infelizmente eu ainda deixo que me abalem.
Eu sempre fui
uma pessoa que se entregou muito em todas minhas relações: amorosas, familiares
e de amizades. E não era por carência não. Eu sempre gostei de conversar, estar
junto, ouvir quando a pessoa precisava, fazer e ter companhia. Isso é valido em
qualquer relação, são formas de atenção, carinho, empatia e amor e em todas
essas relações eu sempre tomava no… Isso porque as pessoas abusam da sua boa
vontade, dos seus sentimentos e te usam. Essa sensação de se sentir usada é
horrível, aí vai ficando para trás um caminho de perdas que, querendo ou não,
nos deixam marcas. Essas pessoas foram pessoas com as quais você compartilhou
um pouco da sua vida, suas histórias, às vezes seus segredos, e é tão
frustrante, e tão triste quando você deposita confiança e afeto nas pessoas e
elas te machucam. Algumas, dessas pessoas que estão entre ser tóxicas e
vampiras -ou talvez os dois- você consegue afastar da sua vida, já outras, como
o caso da família, não, e mesmo sabendo que te deixam mal, elas fazem coisas
que te machucam mesmo assim. Parece que existe um prazer mórbido em ver o outro
sofrer, e nesse caso, algo que fica evidente é que essas pessoas podem ser
vistas como perversas, pois ninguém que seja realmente uma pessoa boa do bem
vai fazer mal a alguém, e pior alguém que, por exemplo, já está em um
tratamento contra a depressão. Aí você considera manter essa pessoa por perto porque
você a ama, é alguém da família, e ela ignora os seus sentimentos e consegue
vir uma outra vez com um nível hard de toxicidade, fazendo todos os seus
gatilhos dispararem e você se sentir muito mal. E o que dói mais é que as
atitudes mostram que você está entre a cruz e a espada: você pode perder essa
pessoa, mas ela não ameniza no mínimo o seu modo de agir, mesmo que isso faça
dela uma pessoa melhor para ela e para os outros.
Não acredito
que viver isolado do mundo das pessoas seja bom, mas vamos nos fechando cada
vez mais para o mundo por medo de nos machucar e nunca concluir a nossa
reconstrução. Se nós já temos medo de algumas pessoas da própria família,
imagina do mundo? Passa na cabeça da gente até desistir, pois chegamos a um
ponto que já sofremos tanto que passamos mais da metade da vida sofrendo, e não
queremos mais isso para nós mesmos. Chega um momento que precisamos saber como
nos preservar. Eu sou fruto de uma família (muito) tóxica, onde meus pais foram
os pais que conseguiram ser, com o pouco recurso que tinham e com o pouco
estudo que tinham fizeram o que puderam por mim. Já meus irmãos foram os irmãos
que escolheram ser, pois eles tinham esclarecimento, eles sabiam que eu já
vinha de uma depressão crônica que muito provavelmente pode ter sido
desencadeada na infância, por ter sido uma criança no meio de tantas brigas, tanta
desunião, tanta discórdia, já que fui a filha caçula, a que fica no canto vendo
as coisas acontecerem, sem entender muita coisa. A gente não entende o que está acontecendo,
mas sente, e essas marcas ficam; aí, quando você vai se tornando uma
adolescente cheia de problemas, a culpa ainda é sua, porque ninguém quer saber
se te causou traumas, e se você comenta ninguém lembra, a única certeza que
eles têm é que você é problemática e a culpa é exclusivamente sua. Uma coisa
que aprendi na terapia foi assumir as responsabilidades dos meus atos, e sei
que toda relação existe responsabilidade para ambos os lados, e agora a minha
eu já sei buscar para mim.
Dizem que
quando somos adultos, reproduzimos o que vimos na nossa casa. Quando fiquei
adulta e tive a dimensão disso, decidi que eu iria romper esse ciclo porque eu
não queria ser uma pessoa extremamente egoísta, ou alguém que só se importava
com dinheiro, e nem ser alguém extremamente orgulhosa, arrogante, soberba. Se
cheguei a ser assim? Sim, já que nós, de fato, reproduzimos o meio. Mas eu,
graças a Deus, estou conseguindo mudar isso, e por isso é necessário estarmos
evoluindo diariamente. Algo que me orgulha nesse processo é ter tido o
reconhecimento de que “tinha melhorado muito” nas palavras dela, minha mãe.
Entre os irmãos existem muitas mágoas, de todos os lados, e eles, logo nunca
reconheceram que melhorei em alguma coisa. Jamais serei hipócrita em dizer que
não os magoei também, que não tive atitudes escrotas com eles, mas essa pessoa
ficou no meu passado e essa nova pessoa que sou vai se afastar de todos, se
preciso for, para manter a saúde mental, a estabilidade emocional e continuar
sendo essa pessoa em construção que tem muito a evoluir, mas que já deu passos
largos, e não pretende deixar esse processo se perder.

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