sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Traumas

 


Existem pessoas que já nos fizeram tanto mal, psicologicamente falando, que elas ativam mais gatilhos do que se você vivesse em um verdadeiro faroeste. Às vezes são situações até bem simples, que em qualquer outra pessoa não surtiriam efeito nenhum, mas o seu cérebro já associa essa pessoa aos traumas que ela te causou e, aí já vêm os sintomas mais variados: ansiedade, nervosismo, vontade de chorar, falta de ar, uma angústia inexplicável.

Eu, infelizmente, sofri os maiores traumas de pessoas da família, de pessoas que amava. Toda vez que me encontro em um processo de reconstrução da mulher feliz, alegre que um dia fui, sempre vem algumas dessas pessoas me desmontar e volto a ser os cacos no chão, tendo que iniciar novamente essa reconstrução sempre, e ela se dá de forma lenta. Às vezes me pergunto se não terei mais direito a uma vida plena, sem tantos gatilhos, se nunca vou ser imune ao mal que essas pessoas me causam. Queria ter um tempo de paz, sem ter que viver na perspectiva de alguém vir me derrubar de novo. Estou num processo tão bom de ter voltado a estudar, de autoconhecimento, enfrentando meus fantasmas, e não queria que esse processo acabasse por atitudes dos outros que infelizmente eu ainda deixo que me abalem.

Eu sempre fui uma pessoa que se entregou muito em todas minhas relações: amorosas, familiares e de amizades. E não era por carência não. Eu sempre gostei de conversar, estar junto, ouvir quando a pessoa precisava, fazer e ter companhia. Isso é valido em qualquer relação, são formas de atenção, carinho, empatia e amor e em todas essas relações eu sempre tomava no… Isso porque as pessoas abusam da sua boa vontade, dos seus sentimentos e te usam. Essa sensação de se sentir usada é horrível, aí vai ficando para trás um caminho de perdas que, querendo ou não, nos deixam marcas. Essas pessoas foram pessoas com as quais você compartilhou um pouco da sua vida, suas histórias, às vezes seus segredos, e é tão frustrante, e tão triste quando você deposita confiança e afeto nas pessoas e elas te machucam. Algumas, dessas pessoas que estão entre ser tóxicas e vampiras -ou talvez os dois- você consegue afastar da sua vida, já outras, como o caso da família, não, e mesmo sabendo que te deixam mal, elas fazem coisas que te machucam mesmo assim. Parece que existe um prazer mórbido em ver o outro sofrer, e nesse caso, algo que fica evidente é que essas pessoas podem ser vistas como perversas, pois ninguém que seja realmente uma pessoa boa do bem vai fazer mal a alguém, e pior alguém que, por exemplo, já está em um tratamento contra a depressão. Aí você considera manter essa pessoa por perto porque você a ama, é alguém da família, e ela ignora os seus sentimentos e consegue vir uma outra vez com um nível hard de toxicidade, fazendo todos os seus gatilhos dispararem e você se sentir muito mal. E o que dói mais é que as atitudes mostram que você está entre a cruz e a espada: você pode perder essa pessoa, mas ela não ameniza no mínimo o seu modo de agir, mesmo que isso faça dela uma pessoa melhor para ela e para os outros.

Não acredito que viver isolado do mundo das pessoas seja bom, mas vamos nos fechando cada vez mais para o mundo por medo de nos machucar e nunca concluir a nossa reconstrução. Se nós já temos medo de algumas pessoas da própria família, imagina do mundo? Passa na cabeça da gente até desistir, pois chegamos a um ponto que já sofremos tanto que passamos mais da metade da vida sofrendo, e não queremos mais isso para nós mesmos. Chega um momento que precisamos saber como nos preservar. Eu sou fruto de uma família (muito) tóxica, onde meus pais foram os pais que conseguiram ser, com o pouco recurso que tinham e com o pouco estudo que tinham fizeram o que puderam por mim. Já meus irmãos foram os irmãos que escolheram ser, pois eles tinham esclarecimento, eles sabiam que eu já vinha de uma depressão crônica que muito provavelmente pode ter sido desencadeada na infância, por ter sido uma criança no meio de tantas brigas, tanta desunião, tanta discórdia, já que fui a filha caçula, a que fica no canto vendo as coisas acontecerem, sem entender muita coisa.  A gente não entende o que está acontecendo, mas sente, e essas marcas ficam; aí, quando você vai se tornando uma adolescente cheia de problemas, a culpa ainda é sua, porque ninguém quer saber se te causou traumas, e se você comenta ninguém lembra, a única certeza que eles têm é que você é problemática e a culpa é exclusivamente sua. Uma coisa que aprendi na terapia foi assumir as responsabilidades dos meus atos, e sei que toda relação existe responsabilidade para ambos os lados, e agora a minha eu já sei buscar para mim.

Dizem que quando somos adultos, reproduzimos o que vimos na nossa casa. Quando fiquei adulta e tive a dimensão disso, decidi que eu iria romper esse ciclo porque eu não queria ser uma pessoa extremamente egoísta, ou alguém que só se importava com dinheiro, e nem ser alguém extremamente orgulhosa, arrogante, soberba. Se cheguei a ser assim? Sim, já que nós, de fato, reproduzimos o meio. Mas eu, graças a Deus, estou conseguindo mudar isso, e por isso é necessário estarmos evoluindo diariamente. Algo que me orgulha nesse processo é ter tido o reconhecimento de que “tinha melhorado muito” nas palavras dela, minha mãe. Entre os irmãos existem muitas mágoas, de todos os lados, e eles, logo nunca reconheceram que melhorei em alguma coisa. Jamais serei hipócrita em dizer que não os magoei também, que não tive atitudes escrotas com eles, mas essa pessoa ficou no meu passado e essa nova pessoa que sou vai se afastar de todos, se preciso for, para manter a saúde mental, a estabilidade emocional e continuar sendo essa pessoa em construção que tem muito a evoluir, mas que já deu passos largos, e não pretende deixar esse processo se perder.

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