quinta-feira, 9 de julho de 2020

Traumas


Ultimamente tenho falado muito com minha psicóloga sobre meus traumas, algumas coisas que aconteceram na minha vida. Eu sabia que ainda tenho traumas, outras coisas que aconteceram, sobretudo, na infância, mas não sabia que poderiam ser geradoras de traumas e que esses traumas ainda hoje se fazem presentes na minha vida.
Muitas pessoas, principalmente da minha geração, cresceram ouvindo a história do homem do saco que nos levariam se não fôssemos crianças comportadas, que se você não se comportasse bem Papai Noel não te traria presente no final do ano. Está certo que muitas vezes por serem leigas ou por falta de sensibilidade a pessoa nem fazia por mal, mas o fato é que essas “brincadeiras” além de causar um medo e uma insegurança reais, também podem causar traumas. Em algumas talvez não provoque nada, em outras pode se transformar em traumas reais, sim!
O que mais ouvimos falar hoje em dia é que essas pessoas são cheias de frescura, que a geração de hoje é muito cheia de mimimi. O mais engraçado de tudo isso que muitas vezes essa mesma pessoa que tece esses comentários é uma pessoa repleta de traumas e não sabe lidar com eles ou nem os identifique, até porque em alguns traumas são necessários um acompanhamento psicológico para ajudar a organizar certas coisas na nossa cabeça e identificá-los.
Lembro de uma situação da infância da minha filha da qual fiquei muito aborrecida. Ela estava brincando na rua da casa da vó paterna, e a sua tia estava olhando enquanto brincava com outras crianças. Eu e meu marido tínhamos saído muito rapidamente, e quando voltamos, assim que minha filha nos viu veio ao nosso encontro, e a irmã do meu esposo também veio. Ela disse que minha filha já tinha corrido bastante, e esta mostrou para minha cunhada como o seu coração estava batendo de forma acelerada. Rindo, minha cunhada nos mostrou uma brincadeira que fez com minha filha, e nesse momento disse que ela abrisse a boca para que o coração saísse, assim parasse de bater de forma acelerada. Nessa época minha filha tinha uns 3 anos de idade e abriu a boca para que o coração saísse. Eu dei um sorriso amarelado, porque no momento não consegui expressar minha reação, achei uma brincadeira de extremo mal gosto e perversa. E já tinha presenciado o pai do meu marido falar sobre o homem do saco.
O mais engraçado é que nem terapia eu fazia ainda, mas o meu bom senso me alertou que isso não eram brincadeiras saudáveis nem com a minha filha e nem criança nenhuma. Esses são casos mínimos que estou citando aqui, pois sabemos que em nosso país os traumas causados à crianças em lares desestruturados, crianças em situação de vulnerabilidade, espancadas, violentadas e essas crianças também serão um reflexo da sociedade que teremos.
 E não, um trauma na infância ou em qualquer idade, não é frescura, nem mimimi!
Isso são experienciais reais de dor, medo, insegurança, ansiedade podendo se tornarem patologias como depressão, ansiedade, TOC, síndrome de pânico, entre outras e que muitas vezes essas patologias podem roubar uma fase das nossas vidas e nunca será recuperada. Ela poderá ser reconstruída, mas nunca nada que você perdeu voltara a ser como poderia ter sido um dia e isso é triste, é frustrante, é desencorajador, pois você tenta continuar sua caminhada parecendo que na sua vida sempre haverá uma lacuna que não foi completada.
Além de tudo temos que saber administrar a culpa nas pessoas que achamos que poderiam ter nos protegido, saber que é necessário liberar o perdão, nem sempre seja porque a pessoa mereça esse perdão, mas você que precisa encontrar a sua paz. Temos que deixar, a medida que esses traumas forem sendo resolvidos, eles irem embora e deixarem de nos assombrar.
Não somente os traumas de infância que nos assombram, existem traumas na idade adulta que as vezes assombram bem mais e quando você passa uma situação que te faz lembrar daquele dia fatídico que te traumatizou, você vive aquela mesma experiência de angústia, ansiedade, o chão sumindo de debaixo dos pés e não existe situação mais desesperadora que você reviver uma situação que para você já estava superada. Então é muito importante saber tocar no mundo do outro, cada um de nós tem suas histórias, dores, traumas e isso difere de uma pessoa para outra, mas isso não significa que a minha dor seja menos dolorosa do que a sua e vice-versa. Tudo são dores! Nem uma dor deve ser menosprezada, pelo contrário devem ser respeitadas, se puder ajudar alguém que sofre com patologias como depressão, ansiedade entre outras faça isso, pois o que menos temos, nós que sofremos disso, é empatia, acolhimento e atenção. Vivemos sim cercados de preconceitos, julgamentos e incompreensão e isso causa ainda mais dor.



Por: Nina

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