Ultimamente
tenho falado muito com minha psicóloga sobre meus traumas, algumas coisas que
aconteceram na minha vida. Eu sabia que ainda tenho traumas, outras coisas que
aconteceram, sobretudo, na infância, mas não sabia que poderiam ser geradoras
de traumas e que esses traumas ainda hoje se fazem presentes na minha vida.
Muitas pessoas,
principalmente da minha geração, cresceram ouvindo a história do homem do saco
que nos levariam se não fôssemos crianças comportadas, que se você não se
comportasse bem Papai Noel não te traria presente no final do ano. Está certo
que muitas vezes por serem leigas ou por falta de sensibilidade a pessoa nem
fazia por mal, mas o fato é que essas “brincadeiras” além de causar um medo e
uma insegurança reais, também podem causar traumas. Em algumas talvez não
provoque nada, em outras pode se transformar em traumas reais, sim!
O que mais
ouvimos falar hoje em dia é que essas pessoas são cheias de frescura, que a
geração de hoje é muito cheia de mimimi.
O mais engraçado de tudo isso que muitas vezes essa mesma pessoa que tece esses
comentários é uma pessoa repleta de traumas e não sabe lidar com eles ou nem os
identifique, até porque em alguns traumas são necessários um acompanhamento psicológico
para ajudar a organizar certas coisas na nossa cabeça e identificá-los.
Lembro de uma
situação da infância da minha filha da qual fiquei muito aborrecida. Ela estava
brincando na rua da casa da vó paterna, e a sua tia estava olhando enquanto brincava
com outras crianças. Eu e meu
marido tínhamos saído muito rapidamente, e quando voltamos, assim que minha
filha nos viu veio ao nosso encontro, e a irmã do meu esposo também veio. Ela
disse que minha filha já tinha corrido bastante, e esta mostrou para minha
cunhada como o seu coração estava batendo de forma acelerada. Rindo, minha
cunhada nos mostrou uma brincadeira que fez com minha filha, e nesse momento disse
que ela abrisse a boca para que o coração saísse, assim parasse de bater de
forma acelerada. Nessa época minha filha tinha uns 3 anos de idade e
abriu a boca para que o coração saísse. Eu dei um sorriso amarelado, porque no
momento não consegui expressar minha reação, achei uma brincadeira de extremo
mal gosto e perversa. E já tinha presenciado o pai do meu marido falar sobre o
homem do saco.
O mais
engraçado é que nem terapia eu fazia ainda, mas o meu bom senso me alertou que
isso não eram brincadeiras saudáveis nem com a minha filha e nem criança
nenhuma. Esses são casos mínimos que estou citando aqui, pois sabemos que em
nosso país os traumas causados à crianças em lares desestruturados, crianças em
situação de vulnerabilidade, espancadas, violentadas e essas crianças também
serão um reflexo da sociedade que teremos.
E não, um trauma na infância ou em qualquer
idade, não é frescura, nem mimimi!
Isso são
experienciais reais de dor, medo, insegurança, ansiedade podendo se tornarem
patologias como depressão, ansiedade, TOC, síndrome de pânico, entre outras e
que muitas vezes essas patologias podem roubar uma fase das nossas vidas e
nunca será recuperada. Ela poderá ser reconstruída, mas nunca nada que você
perdeu voltara a ser como poderia ter sido um dia e isso é triste, é
frustrante, é desencorajador, pois você tenta continuar sua caminhada parecendo
que na sua vida sempre haverá uma lacuna que não foi completada.
Além de tudo
temos que saber administrar a culpa nas pessoas que achamos que poderiam ter nos
protegido, saber que é necessário liberar o perdão, nem sempre seja porque a
pessoa mereça esse perdão, mas você que precisa encontrar a sua paz. Temos que
deixar, a medida que esses traumas forem sendo resolvidos, eles irem embora e
deixarem de nos assombrar.
Não somente os
traumas de infância que nos assombram, existem traumas na idade adulta que as
vezes assombram bem mais e quando você passa uma situação que te faz lembrar
daquele dia fatídico que te traumatizou, você vive aquela mesma experiência de
angústia, ansiedade, o chão sumindo de debaixo dos pés e não existe situação
mais desesperadora que você reviver uma situação que para você já estava
superada. Então é muito importante saber tocar no mundo do outro, cada um de
nós tem suas histórias, dores, traumas e isso difere de uma pessoa para outra,
mas isso não significa que a minha dor seja menos dolorosa do que a sua e
vice-versa. Tudo são dores! Nem uma dor deve ser menosprezada, pelo contrário
devem ser respeitadas, se puder ajudar alguém que sofre com patologias como
depressão, ansiedade entre outras faça isso, pois o que menos temos, nós que
sofremos disso, é empatia, acolhimento e atenção. Vivemos sim cercados de
preconceitos, julgamentos e incompreensão e isso causa ainda mais dor.
Por: Nina

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